segunda-feira, 10 de abril de 2017

Alice e a Pedra de Sísifo


Há tempos Alice não sonhava com um contexto tão estranho como ocorrera no mês junino de seus treze anos.

Ao longe, viu seu amigo de engraçado chapéu demonstrando um sorriso fingido e quase sarcástico como se em outra alma estivesse. Com certeza, a estranha aparência não era profícua em enganar a essência. Não poderia mesmo ser o Chapeleiro Louco!

Tal estranha pessoa empurrava uma grande pedra ladeira acima juntamente com um homem de lábios tristes e olhar cansado. - Apressa-te, Sísifo! Para nada adianta! Retornes para o início e esqueça que tua pressa diária são questões de somenos! Nunca mais tomarás chá! Nunca mais! Ó triste criatura! 

Alice pensou estar num tipo de Hades. Embora inferior,  tal mundo reunia, de forma gregária, interessantes criaturas que, num átimo de suas vidas, desceram à morte e lá se entregaram a repetidos discursos e infindáveis memórias de uma saudosa vida terrena.

Tudo era muito curioso! A começar por um senhor cujos bigodes apontavam freneticamente para cima! - Relações lineares ou triangulares?! Relações triangulares ou lineares?! Você e outro! Depois... você, o outro e o Juiz! - Dizia o velhinho com a mão ao ar como se desenhasse um reta e depois um triângulo.

- Com licença, senhor! - Falou a menina. 

- Não me interrompa! Por acaso, você peticionou? O que exatamente você tem que me falar que não possa colocar elegantemente num caderno processual? - Dizia o velhinho empolgado com a descoberta do processo! 

Alice era incrivelmente inteligente em seus sonhos, mas pobre de informações na realidade! Seu olhar atento ao desconhecido tinha mais a dizer do que ela mesma imaginava! As respostas vinham como trazidas pelo vento quente daquele lugar estranho como ela mesma.

- Deixe a menina em paz, ó homem! Perdoe-me, criança! Permita-me apresentar-me: Ulpiano, seu criado! Decerto, tens consciência que não deves andar por aí falando com qualquer um! Conquanto digam que as relações privadas podem ser publicizadas, digo-te que o certo mesmo é alocar cada coisa em seu lugar! Não confundas tu o público com o privado e, sempre que puderes, faça de meu Digesto o seu falar! - Disse o distinto senhor, chamado Ulpiano, puxando sem maiores cautelas o velho pelos bigodes e jogando-o para bem longe de Alice.

- Por favor, senhor! Vejo que Vossa Excelência é jurista de bons modos...Tenha piedade do pobre velhinho! A autotutela é exercício arbitrário das próprias razões. E, além disso, não há lide entre ti e o ancião bigodudo. Se este não soube manifestar-se da forma devida, apelo à instrumentalidade das formas para plasmar o entendimento de que tal processo de apresentação já chegou ao fim almejado: mostrar-me como estranho é esse mundo cá embaixo! - Falou Alice como sabedora dos arestos jurídicos que vagueavam pelas memórias de seus espectadores.

- Pelo visto conheces bem a "legis actiones"! Contudo, já passamos do período formulário e, atualmente, Roma evoluiu para a "extraordinária cognitio", minha cara! Não bastam as palavras! Coloque-as no papiro e se apresente como testemunha desse que aqui está! - Falou Ulpiano com a autoridade que lhe era peculiar... Pelo menos, era isso que vinha à mente da menina.

Alice nada entendeu. Estava completamente confusa com tantos dizeres difíceis de interpretar. 

De repente, um redemoinho de poeira vermelha passou pelo lugar e como se braços tivesse agarrou Alice pelo pé e a colocou em frente a um grande Tribunal de números falantes.

- Um! Venha aqui e mostre-se juntamente com o cinco! Culpado! Seis! Soma! Ande, homem! - Gritava um velho envolto a uma nuvem de fogo que ficava abaixo de todos, inclusive de Alice.

Alice se assustou demasiadamente com a Ordália à vista. A aritmética, pelo visto, era suficiente para colocar um homem como culpado pelos deuses. Surgia o homem em todos os lugares ao redor de Alice. Como num filme macabro, o homem segurava em suas mãos uma barra de ferro tão quente como o fogo que saía da nuvem do velho ardente! Se Alice não conhecesse plenamente os sonhos que já tivera, acreditaria que se tratasse da macabra versão masculina da Rainha de Copas! E, como era evidente, os números faziam às vezes das cartas de baralho!

Fugitivo de Ulpiano, lá vinha o velho bigodudo novamente! E como falava sem parar! 

- 1868! Ó, Büllow! Pressupostos processuais e exceções dilatórias! Superação do pensamento imanentista! Triangular! No Brasil, desde 1934, é a União a legislar! - Disse o velho do bigode, que, agora, também tinha as sobrancelhas levantadas como dois pássaros desenhados a carvão.

Não demorou muito para Ulpiano, de Digesto na mão, pegar o ancião pelas orelhas e levá-lo ao cárcere que mais parecia um porão.

- Alice! Alice! - Falou uma voz cativante. A menina nunca a tinha escutado. Era incrível! Como de muitas águas e, como tal, trazia uma sensação refrescante para a infante.

Disse a voz: - Alice, não adianta empurrar todo conhecimento e voltar para o mesmo lugar. Diminui a pedra para chegar ao topo. O ótimo é inimigo do bom e saber pouco, mas saber bem, é o início da aprovação. Não é possível carregar esse peso todo na subida.

Depois dessas palavras, Alice finalmente acordou para poder descansar.

Karoline Brasil

Nenhum comentário:

Postar um comentário